As Homologações
Aprofundar este sentido criativo da Oração, é ver como ela cumpre cada vez por sua parte este voto deo Ser Divino aspirando a criar o universo dos seres, a se revelar neles para ser conhecido de si mesmo, em resumo o voto do Deus absconditus ou Theos agnostos aspirando à Teofania. Cada oração, cada instante de cada oração, é então uma recorrência da Criação (tajdid al-khalq), uma Criação nova (khalq jadid), tal como vimos anteriormente o sentido. À criatividade da Oração está ligado o sentido cósmico da Oração, este sentido que percebia tão bem Proclus na oração do heliotropo. Este sentido cósmico aparece em duas espécies de homologações que esboçam Ibn Arabi e seus comentadores, e que têm este extremo interesse de nos mostrar o sufismo reproduzindo, no Islã mesmo, as démarches e configurações mentais da consciência mística conhecidas alhures, notadamente na Índia. Uma destas homologações consiste para o orante a se representar a si mesmo como sendo o Imã de seu próprio microcosmo. Uma outra consiste em homologar os gestos rituais da Oração (realizada privadamente) com os «gestos» da Criação do universo que é o macrocosmo. Estas homologações subentendem o sentido da Oração como criadora; elas preparam, fundamentam e justificam a finalização visionária, posto que precisamente como criação nova, ela significa epifania nova (tajalli). Progredimos assim para o encerramento: a Imaginação criadora à serviço da Oração criadora, na concentração de todos os poderes do coração, a himma.
Sumário
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O Significado Criativo da Oração e a Aspiração Divina à Teofania
- A oração como realização do desejo do Ser Divino de criar o universo e revelar-Se para ser conhecido por Si mesmo.
- Conceito do Deus absconditus ou Theos agnostos aspirando à Teofania.
- Cada oração e cada instante nela como uma recorrência da Criação (tajdid al-khalq) e uma nova Criação (khalq jadid).
- A conexão entre a criatividade da Oração e o seu significado cósmico, conforme percebido por Proclus na oração do heliotropo.
- A reprodução, no Sufismo islâmico, de operações e configurações da consciência mística conhecidas noutras tradições, especialmente na Índia.
- A homologação do homem em oração como o Imã do seu próprio microcosmo.
- A homologação dos gestos rituais da Oração aos atos da Criação do universo ou macrocosmo.
- O significado da Oração como criativa, preparando e justificando o seu desfecho visionário como nova epifania (tajalli).
- Conclusão: a Imaginação Criativa ao serviço da Oração Criativa, através da himmah, a concentração de todos os poderes do coração.
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A Primeira Homologação: O Orante como Imã do seu Microcosmo
- A ideia do Imã como "aquele que guia" e que está à frente dos fiéis na oração coletiva.
- A concepção sunita do Imã como simples oficiante de mesquita, sem relação com qualidades espirituais.
- A concepção xiita do Imã como epifania da Divindade e guia espiritual da humanidade.
- A existência transcendente dos Imãs como entidades cosmogônicas.
- O Xiismo como Imamismo (Imamiya), centrado na devoção aos Imãs Santos.
- O duodécimo Imã do Xiismo Duodecimano em ocultação (ghayba), sendo o único com direito de guiar a Oração.
- A substituição, na sua ausência, por pessoas de alta qualidade espiritual, reconhecidas pela comunidade.
- A preferência pela prática do culto em privado pelos xiitas piedosos.
- O desenvolvimento extraordinário da literatura das Ad'iya, ou liturgias privadas, no Imamismo.
- A simpatia desta forma de devoção com o ritual privado descrito por Ibn Arabi como Munajat, um diálogo íntimo.
- O investimento do místico na dignidade de Imã em relação ao seu próprio universo microcósmico.
- A condição de solidão para este serviço divino pessoal, onde o orante se torna Imã para os "anjos que oram atrás dele".
- A elevação da pessoa durante a Oração ao nível de Enviados Divinos e ao posto de vicariato divino (niyabat 'an Al-Lah).
- O orante como Imã do seu microcosmo sendo, portanto, vice-regente do Criador.
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Os Anjos do Microcosmo e a Fisiologia Sutil
- A concepção dos "Anjos do microcosmo" como as faculdades físicas, psíquicas e espirituais do homem individual.
- A noção de uma "fisiologia sutil" resultante da psicocosmologia e cosmofisiologia, que transforma o corpo humano num microcosmo.
- A homologia de cada parte da cosmologia no homem, contendo nele todo o universo.
- A geração dos Anjos do macrocosmo a partir das faculdades do Homem Primordial, o Anjo chamado Espírito (Ruh).
- A representação das faculdades humanas como Anjos, transformadas em centros e órgãos sutis.
- A construção do corpo na fisiologia sutil como uma angelologia microcósmica.
- A frequência de alusões a esta angelologia microcósmica nos autores estudados.
- A relação do místico, como Imã, com este microcosmo transformado numa "corte de Anjos".
- A situação análoga à do mystes no Hino de Hermes (Corpus hermeticum XIII), onde o eleito regenerado invoca os Poderes divinos que residem nele para orarem com ele: "Poderes que estais em mim, cantai o hino... cantai em uníssono com a minha vontade".
- A ideia de que, porque Deus, o Nous, se tornou o olho espiritual do homem, quando o homem regenerado louva Deus, é Deus que louva a Si mesmo.
- A declaração de Ibn Arabi de que, na doxologia final, "é o próprio Deus que, pela língua do Seu fiel, profere as palavras: 'Deus ouve aquele que O glorifica'".
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A Segunda Homologação: Os Gestos da Oração e a Criação do Cosmos
- A homologação da Oração com a cosmologia e o ato cosmogônico inicial renovado a cada instante.
- A base da homologação nas atitudes corporais prescritas na Oração ritual: postura ereta (qiyam), inclinação profunda (ruku'), prostração (sujud).
- A compreensão da Oração do homem e da Oração de Deus, da sua sinergia, cumplicidade e copresença.
- O movimento do pensamento puro (harakat ma'qula) que transfere o universo do estado de ocultação para o estado manifesto de existência concreta, constituindo teofania no mundo visível ('alam al-shahada).
- A redução dos movimentos dos seres naturais no mundo sensível a três categorias, abarcadas pelo ritual da Oração:
- O movimento ascendente e vertical, correspondente à postura ereta do fiel, análogo ao crescimento do homem, cuja cabeça se ergue em direção aos céus.
- O movimento horizontal, correspondente ao estado do orante no momento da inclinação profunda, análogo à direção do crescimento dos animais.
- O movimento inverso e descendente, correspondente à prostração, análogo ao movimento da planta, que aprofunda as suas raízes.
- A Oração como reprodução dos movimentos do universo criatural e como recorrência da Criação e nova Criação.
- A homologação do movimento do pensamento puro, enquanto aspiração do Deus absconditus à teofania, que dá origem à gênese do cosmos:
- O movimento intencional (harakat iradiya) do Ser Divino, a Sua "conversão" (tawajjuh, epistrophe) para o mundo inferior, para o existenciar, correspondendo à prostração e ao movimento das raízes das plantas.
- A "conversão" divina para o mundo superior, o dos Nomes divinos e das hecceidades eternas, correspondendo à postura ereta e ao movimento de crescimento do homem.
- A "conversão" divina para os corpos celestes intermédios, de um horizonte ao outro, correspondendo à inclinação profunda e ao movimento horizontal de crescimento animal.
- A constituição da Oração de Deus (Salat al-Haqq) como a Sua teofania existenciadora (tajalli ijadi).
- A correspondência, fase a fase, entre todo este desenvolvimento, a partir do Ibdá' (a dádiva original, a criação do pleroma), e o serviço divino ('ibada) do fiel.
- A reprodução exata, pelos gestos e atitudes corporais na Oração, dos "gestos" de Deus criando o mundo.
- A Oração como recorrência da Criação criadora.
- A homologia entre Ibdá' e 'ibada, ambas provenientes da mesma aspiração e intenção teofânica.
- A Oração de Deus como a Sua aspiração a manifestar-Se, a ver-Se num espelho que também O vê.
- O cumprimento desta aspiração pela Oração do homem, que, ao tornar-se espelho desta Forma, vê a "Forma de Deus" (surat al-Haqq) no seu santuário secreto.
- A visão da Forma de Deus só sendo possível porque a visão do orante é, ela mesma, a Oração de Deus (Salat al-Haqq).
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O Desfecho da Oração: Contemplação e Imaginação Ativa
- A aproximação do desfecho que coroa a munajat, o "salmo confidencial", a rememoração, a meditação e a presença recorrente (enthymesis).
- A tradição (khabar ilahi) que afirma: "Eu mesmo acompanho aquele que medita em mim (que me mantém presente em si mesmo)".
- A consequência da companhia divina: a possibilidade de o fiel, dotado de visão interior, ver Aquele que assim se faz presente.
- A designação desta experiência como contemplação (mushahada) e visualização (ru'ya).
- O reconhecimento, por parte de cada orante (musalli), do seu grau de progresso espiritual pela capacidade ou não de ver o seu Senhor mostrar-Se (tajalli) no órgão sutil que é o seu coração.
- A injunção para que, se não O vê dessa forma, O adore pela fé como se O visse.
- O profundo sabor da Imamologia xiita nesta injunção, sendo o Imã a forma teofânica por excelência.
- A injunção como um apelo para pôr em ação o poder da Imaginação Ativa: "Que o fiel O represente pela sua Imaginação Ativa, face a face na sua Qibla, no decurso do seu diálogo íntimo".
- A convocação para que o fiel seja alguém que "empresta ouvido" às respostas divinas, praticando o método da oração teofânica.